Conto 2: Entre o Navio e a Raposa

entre o navio e a raposa

Eu odeio esta coleira. E minha raiva se tornou ainda maior quando meu dono a apelidou “carinhosamente” de Clotilde. 

Peguei a trevosa! — comemora Allan, quando puxa a corrente e me arrasta até a praia. — Vamos, James!

 Lá vem o mesmo discurso de sempre. 

Sai desse corpo e vira gente! brada James, seguindo o parceiro.

Rápido, sua raposa maldita! começa Julio. A gente sabe o que você faz na Casa Noturna!

Apenas ignoro. Sinto meu pescoço estalando com o puxão.

Batam até ela chorar! diz Allan. Um dia essa vadia vai ceder! Rápido, antes que o dono dela descubra!

Não me importaria de divertir algumas crianças desesperadas. Porém, se o fizer sem receber pelo serviço, meu mestre não me perdoará ou, pior, irá puni-los. 

Eles descarregam toda sua frustração em mim.  Seus socos e chutes não machucam tanto quanto gostariam, mas finjo que sim.  No fundo, sinto pena desses garotos. 

Eu os vi crescendo, e agora precisam lidar com a pressão de ainda não ter dormido  com uma mulher. Humanos e suas humanices. É difícil compreendê-los.

Enquanto estou em minha atuação de desmaio, ouço uma voz feminina gritando

Parem com isso! Soltem ela!

O alerta fez os agressores fugirem. Meu faro revela que um casal se aproxima. Não consigo resistir a curiosidade e abro os olhos. Uma garota de cabelos ensolarados se ajoelha ao meu lado e coloca minha cabeça em seu colo. Seu toque é  como brisa de verão.

Pronto diz ela, sorrindo.   Eles já foram embora. Está segura agora.

Say pergunta o jovem que a acompanha. É uma raposa de mana prateada?

Ele tenta me tocar, mas todos os meus instintos me fazem reagir e mordê-lo. O garoto puxa a mão por reflexo. Graças a sua rápida atitude, meus dentes só arranharam sua pele.

Espero que ele me empurre, xingue, bata. Entretanto, nada acontece.

Por que você o mordeu? pergunta a menina.

A culpa não é dela, Sayuri. diz o garoto, que me olha e pisca. Eu não devia ter me aproximado tão de repente. Certo? 

O que estou fazendo? É apenas uma criança de chi. Por que me assustou tanto? Passado o susto, ganho carinho na minha orelha e balanço a cauda em sinal de paz. Os ferimentos em sua mão pouco sangram. Ele não parece se importar com a dor, mas sei que está fingindo muito bem. 

Hum…Isso é gosto de baunilha? Aproximo-me e lambo as pequenas lesões que causei. Ele tem gosto de baunilha! De que é feito esse humano? Meus devaneios acabam quando Sayuri se agarra ao meu pescoço. 

Quem é a raposinha boazinha? pergunta ela.   Ela pode vir com a gente, Je… John?

Raposinha? questiona o rapaz, levantando a sobrancelha Acho que ela tem dono aponta para a Clotilde.

E nós não podemos… Roubá-la?

Ela se aproxima do companheiro, fazendo uma expressão comparável aos melhores cachorros pidões que já conheci. Confesso que estou quase me roubando por ela.

Sinto muito, Say. Só podemos mantê-la conosco até acharmos seu mestre.

Como esse cretino consegue dizer não?! Espera, o que estou pensando? Se ele me roubar eu explodo! Preciso agradecê-lo depois. Essa garota é um perigo!

Quero fazer algo para retribuir sua gentileza. Porém, meu pensamento é interrompido por um rugido. Coloco-me em posição de ataque. Como é possível um animal com tal ronco não estar ao alcance dos meus olhos? Será uma quimera invisível? 

O ruído continua e está próximo. Não sinto seu cheiro. Observo a área à nossa volta. Apareça!

Calma, raposinha a menina chama minha atenção.  Seu rosto está corado e suas mãos sobre o estômago.

Eu sempre disse que sua barriga parecia um monstro debocha John.

Você prometeu que conseguiria um tripulante que saiba cozinhar! Não aguento mais comer carne seca ou passar fome reclama ela, fazendo beicinho.

Desculpe, nós vamos conseguir um cozinheiro. Por agora, vamos procurar um lugar para comer. 

Ele acaricia o seu cabelo. 

— Pode me perdoar? 

A jovem encara os olhos verde oceano de John, suspira, vira o rosto fazendo birra e diz:

Que não se repita.

A fome de uma garota humana pode ser assustadora. Quanto mais observo esses dois, menos entendo sua relação. 

Eles seguem para a cidade na busca de um restaurante. Decido acompanhá-los por mais tempo. Ainda faltam algumas horas para anoitecer. Ando alguns passos atrás do casal para evitar que os moradores os encarem com desaprovação. 

Os dois param em frente a um pequeno estabelecimento que possui mesas do lado de fora. O dono logo vem recebê-los:

Bem-vindos! Vão entrando…

Nós vamos ficar aqui fora começa John. Estamos com essa raposa até encontrarmos seu dono.

John anda até mim e acaricia minha cabeça. Garoto tolo. 

Entendo. Lamento, não aceitamos trevosos aqui o proprietário fecha o cenho Bem-vindos a realidade dessa ilha, crianças. Começo a me afastar, mas John segura a corrente.

É uma pena.  Vamos gastar nosso ouro em outro lugar, querida. 

John começa a brincar com um saquinho de pano repleto de moedas, o jogando para cima e tornando a pegá-lo. O tilintar do metal batendo, é como um feitiço que hipnotiza o homem.

Espere, senhor! diz o homem num sobressalto. Não vamos nos precipitar. É claro que toda regra tem uma exceção. Vejo que vocês vêm de fora da ilha e não conhecem nossos costumes. Vamos esquecer isso. Voltem, sentem-se.

Sayuri o fulmina com os olhos, mas não diz uma palavra. 

Os dois retornam,  escolhem uma mesa e aguardam as iguarias, que são trazidas uma após a outra. Tanta comida desperta meu apetite. John me oferece um pedaço de carne. Recuso. Será que este garoto estúpido desconhece as leis do Governo Mundial de Orbis? Alimentar o escravo de outra pessoa pode gerar problemas para si e para o estabelecimento. Deito-me e aguardo. 

Assim que acabam a refeição, John chama o proprietário.

Obrigado pela comida. Estava muito boa.

Que bom que agradou ao senhor.

John coloca o ouro sobre a mesa.

Obrigado, senhor.

Os olhos do homem brilham ao ver as moedas. Porém, antes que ele salte sobre elas como um abutre na carniça, John as encobre com sua mão.

Eu gostaria de uma informação diz o garoto, com um toque de malícia. Será que você poderia nos ajudar?

Sim, claro. O que quiserem.

Say, por favor, mostre o papel a ele.

A garota tira um papel do bolso e o desamassa. 

Ah! Vocês vieram aqui pelo navio da Imperatriz Volcana? pergunta o proprietário, ao ver do que se tratava.

Essa conversa chama minha atenção. Quero saber do que se trata, mas apenas levanto as orelhas para ouvir melhor.

Na verdade, nós paramos para reabastecer começa Sayuri.   Mas assim que John viu o anúncio do navio, ele ficou interessado.

Fiquei? 

Você não tirava os olhos desta imagem.

Nada passa por você, não é? conclui John, com uma piscadela para a amiga.

Em seguida, voltou a atenção para o dono do local.

Realmente estou muito interessado neste anúncio.  Sabe onde podemos encontrar o sujeito que o fez?

Então é por isso que eles estão aqui. Preferia que não encontrassem aquele vigarista. Lembro-me de quando posamos para o retrato do anúncio. Ele me obrigou a ficar ao seu lado, enquanto exibia aquele casco enferrujado que mal flutuava.  

Rubi! uma voz fina de doer nos ouvidos me chama.

Como por invocação, meu mestre surge atrás de nós. Ele se aproxima, fazendo John e Sayuri levantarem para cumprimentá-lo.

Boa tarde, senhor começa John. Esta criatura é sua?

A postura do garoto muda. Está ereto e seu semblante parece sério. Será que a minha idade avançada está danificando minha audição? Ou ele engrossou a voz? Se não fosse por meu faro, eu diria que ele foi substituído por outra pessoa. De repente, minhas observações são interrompidas por meu mestre: 

Sim, ela me pertence responde ele, olhando o casal de cima a baixo. Não reconheço seus rostos, são de fora da ilha?

Perdoe-nos a falta de educação. Sou Capitão John John e esta é a minha imediata, Sayuri. Estávamos de passagem por essa ilha, mas este retrato me chamou atenção.  

Ouvi falar de você. O jovem capitão que está fazendo acordos comerciais por toda região. Dizem que sabe negociar.

Um sorriso tímido cruzou os lábios de John. 

Fico lisonjeado por alguém de sua estirpe conhecer um mero negociante como eu. Sou apenas um aprendiz tentando ganhar a vida.

Gostei de você, garoto. Sabe seu lugar. Ele acaricia a enorme pança. Sou Lorde Baltazar Bust. Venha ao meu estabelecimento esta noite. Basta perguntar pela Casa Noturna, que qualquer um saberá lhe indicar o caminho até lá. Amanhã, falaremos de negócios. 

Sou muito grato pelo convite. Estarei lá. 

John agradece de forma educada. A satisfação está estampada em sua face. Tenho a ligeira impressão de ter visto um risco dourado passar por seus olhos. Mas logo seu cenho se altera. Creio que o motivo de tal transformação seja um frio na espinha que atingiu tanto a ele quanto a mim. Ambos olhamos para Sayuri. Ela parecia estar pronta para matar seu companheiro. Posso jurar que estou vendo uma aura preta em torno dela. Espero por um chilique, entretanto o silêncio é mantido. 

Percebendo a reação da garota, Baltazar se despede: 

Com licença, vou levar meu animal. Ela precisa se aprontar.

Observo os dois se curvando em respeito a retirada de Baltazar. No caminho para casa, meus pensamentos permanecem focados naquelas duas crianças. Aquele garoto está com muita energia acumulada, nunca senti tanto chi em um humano. Talvez ele não tenha percebido ainda, mas logo vai começar a prejudicar seu corpo. Preocupo-me com Sayuri, pois ela pode se machucar se ele perder o controle. 

Ora, o que estou pensando? São humanos, não devia me preocupar com eles. Há algumas décadas eu jamais teria esse tipo de pensamento. O tempo é mesmo capaz de mudar as criaturas.

O que você estava fazendo com aqueles dois? pergunta meu mestre.

Odeio quando ele me faz perguntas na rua, pois preciso voltar a forma humana para falar. Apesar magia de transformação ser rápida como um estalar de dedos, é incômoda. Assim que me estabeleço em meu corpo bípede, respondo:

 — A menina me salvou de alguns delinquentes 

Que bela criatura, Baltazar! grita um homem.

A noite com ela será leiloada hoje! Apareça na Casa Noturna, mas só se puder pagar!  responde meu mestre.

Sabia que não estava interessado na minha resposta, e sim em expor meu corpo nu pela rua. Ele adora. Mantenho as orelhas e a cauda de raposa para que todos saibam que sou um ser de mana, afinal, mulheres humanas não podem ser escravas. Elas também vendem seus corpos, porém, sem coleiras.

Sorria e abane esse seu rabo. Precisamos de clientes.

Sim, senhor.

Faço algumas provocações aos rapazes que passam pelo nosso caminho. Opto pelos acompanhados, só para ver as reações ciumentas. Baltazar me puxa pela coleira.

Cadela desaforada! Escolha os homens solteiros! o mestre me xinga em voz alta.

O engraçado é que ele mesmo sempre me diz que ganha rios de ouro com a infidelidade. E nesse joguinho de hipocrisia, seguimos até a Casa Noturna.

 

 

 

É hora do show e o salão está lotado. 

Boa noite, senhores! Bem-vindos! inicia Baltazar: Hoje, nossas meninas prepararam uma apresentação especial para entretê-los!

A música começa. Não participo dessas apresentações, pois por mais que meu mestre me torturasse, nunca consegui dançar nem cantar. Entretanto, possuo outras habilidades que rendem tanto quanto.

Aplausos ressoam. O show das outras garotas deve ter acabado. Coloco-me em posição para entrar no palco.

Que beleza de show, meninas! elegia Baltazar enquanto elas descem para a plateia, onde seus clientes as aguardam.

Chegamos ao auge da noite! Vocês a conhecem, ela é tímida. Vamos chamá-la, senhores.

Rubi! Rubi! Rubi! Começam os gritos.

Caminho até o centro do palco com a cabeça baixa e o público vai ao delírio, mas sinto um cheiro conhecido e isso quase me faz retroceder. Em todos esses anos, eu nunca travei. Não quero seguir. Não quero aparecer assim na frente dele.

Baltazar vem até mim e vê minha respiração acelerada. Olho para aquele rosto redondo, esperando por uma reação. Sua face é pura malícia.  Desgraçado! Ele percebeu minha hesitação. 

Ora, nossa pequena Rubi está insegura. Acho que é falta de incentivo, senhores.

Começa uma chuva de moedas no palco.

Preciso me controlar! Meus clientes estão esperando por mim. O garoto é apenas mais um. Não tenho como recuar. Pelo menos, Sayuri não está aqui. 

Chego até a frente do palco, levanto a cabeça e sorrio:

Obrigada! Rubi fica muito feliz com seu incentivo Digo com uma voz meiga.

Gritos e assovios me ensurdecem por alguns segundos.

 — Aí está a nossa estrela!  Baltazar retoma a atenção. Então, senhores, vamos falar de negócios. Afinal, nossa Rubi é uma raridade. Os lances começam em cinquenta moedas de ouro.

Vaias e reclamações começam.

Senhores! Temos aqui uma raposa prateada. Alguns homens nunca vão sequer colocar os olhos sobre ela. A Deusa Mana caprichou nesta criatura para que ela pudesse nos servir como nenhuma outra.

Então vem o primeiro lance. Um homem levanta a mão e grita, oferecendo sessenta moedas por mim. 

— Temos o primeiro lance!  Vamos lá, rapazes – incentiva Baltazar, que me olha por um momento. –  Rubi, nossos amigos precisam de um pouco de motivação…

Meus amiguinhos não querem brincar com a Rubi hoje? Faço beicinho.   E se a Rubi for morena?

Sorrio enquanto passo as mãos por toda e extensão do meu cabelo. Conforme os dados correm pelos fios, o prata torna-se preto. 

Não demorou para uma oferta de setenta moedas surgir. Ainda não é o suficiente. 

Será que loira seria melhor? questiono piscando. 

Inclino a cabeça para trás e a sacudo um pouco. O longo cabelo negro e liso muda de cor conforme as ondulações. Cachos dourados recaem sobre meus ombros assim que me inclino para frente mandando beijinhos à plateia. 

Cem moedas! grita o terceiro. 

Rubi prefere ruiva. digo colocando um dedo na boca, enquanto com a outra mão bagunço os fios loiros tornando-os laranjas. 

Cento e dez!

E se a Rubi ficar menor? Finjo sorrir. 

Respiro fundo, pois mudanças de tamanho, assim como de forma, doem. Sinto cada osso encolher. 

Cento e vinte!

Que tal brinquedos maiores? Seguro meus seios e aperto duas vezes. Isso faz com que eles dupliquem de tamanho. 

 — Duzentas moedas!

Duzentas moedas é um excelente valor! O que me diz, Rubi? pergunta Baltazar.

Acho que…

Antes que eu possa responder, um grito me interrompe.

Mil moedas!

O silêncio assola o salão. Conheço essa voz. É como se um raio atingisse meu corpo. Corro os olhos pela plateia, na esperança de não ser quem estou pensando.  Contudo, lá está ele, com a mão levantada. John. Esse moleque não tem noção do que está fazendo.

O queixo do meu mestre quase bate no chão.

Nyah! Você não deve brincar assim com a Rubi! descontraio.

Não estou brincando. Dou mil moedas de ouro por uma noite com você. Isso não é um leilão?

A seriedade em suas palavras arranca o sorriso do meu rosto.  Não… não faça isso, garoto.

Mostre o ouro! interfere Baltazar.

Claro, o ouro! Ele não deve tê-lo. Boa, mestre! Pela primeira vez, fiquei feliz por sua ganância.

Sem problema. Ele está aqui.  

John tira um baú de baixo da mesa na qual está e abre sua tampa.

Baltazar salta do palco para conferir. Sejam falsas, por favor. 

Temos um campeão! – anuncia ele, voltando com um semblante sério, que logo se desmancha. E graças a essa quantia obscena de ouro, a Casa Noturna fará uma rodada de bebidas sem custo para todos os clientes!

A comemoração é grande e a música volta a tocar. Baltazar está sorrindo feito criança com um doce. 

Dirijo-me até meus aposentos. No caminho, Clotilde aperta meu pescoço, fazendo-me parar. Alguns segundos depois, ouço a voz do meu dono ao pé do meu ouvido:

Descubra tudo que puder sobre esse fedelho. Não acredito que pagaria todo esse ouro por você. Ele deve estar tramando algo.

Aceito sua ordem sem  questionar. Suas palavras ferem meu orgulho, mas trazem alguma calma ao meu coração. 

Claro! O Navio!

Entro em meu quarto. O cliente será trazido até mim assim que acabarem de contar as moedas. Seria um bom momento para fugir e deixar essa coleira explodir minha cabeça. Porém, preciso viver, não importa como. Sento-me na cama e aguardo.

A batida na porta me faz saltar. Minha voz falha ao pedir que entre. Seus movimentos são os de um gato acuado. Pelo menos não sou apenas que estou sem jeito. Talvez eu deva quebrar o clima. Encarno a raposa meiga e sorridente. 

O garoto tranca a porta antes de se virar para mim.

Você não precisa fingir comigo diz ele. Deve ser um incômodo agir daquela forma no palco.

 Criança astuta. Levanto uma sobrancelha e cruzo as pernas. 

Você continua me surpreendendo, humano digo. 

Eu? pergunta John, apontando para si com espanto.   Sinceramente, nunca imaginei que você faria tudo que fez naquele palco. 

Aquilo é apenas um truque que qualquer raposa faria. Diga-me, por que está aqui?

Para passar a noite com você responde ele, coçando a cabeça.

Sua convicção é tão falha que me faz rir. Clientes tímidos são raridade. 

Certo. Levanto-me e vou até ele. Então vamos começar digo em seu ouvido.

Espere! 

 Ele foge antes que meus braços o envolvam. Virado para mim, tenta evitar que me aproxime. Estica o braço mantendo seu espaço seguro, à medida que anda para trás.

Prefiro conversar um pouco antes explica ele, conforme caminho em sua direção.

Ao ouvir sua explicação, que é quase uma súplica, desisto da provocação. 

Tudo bem falo, fazendo beicinho. O tempo é seu, você é  quem está pagando.

Faço sinal que ele sente na cama e me sento no chão.

Por favo r diz ele sem jeito, fazendo menção para que eu levante.

Permaneço no chão e aponto para a Clotilde.

Ele faz sinal que compreende com a cabeça e senta-se ao meu lado. 

Vamos direto ao ponto, rapaz. questiono. O que você quer saber?

Cá estamos, de pernas cruzadas como crianças, frente a frente. 

Você gosta deste lugar? pergunta ele, me encarando. 

Que tipo de pergunta idiota é essa? Reviro os olhos.

Responda seu tom muda. Já vi essa transformação antes, no restaurante. 

Não gosto.

A energia dele me incomoda. Está agressiva. 

Seu dono tem muitos escravos? questiona ele.

Suas  feições são calmas. Como pode alguém ser tão contraditório? 

Não posso falar sobre meu mestre explico, enquanto passo o dedo pelo pescoço como se cortasse minha cabeça. 

A mensagem foi bem clara. 

Então vamos falar de você. Você vive com muitos outros escravos?

Sim  Não pude evitar o sorriso.

Você fica linda quando sorri de verdade.

Ele afaga meu cabelo.

Cale a boca! Reajo tirando sua mão.

Não posso te elogiar?

Seus elogios me incomodam.

Tudo bem, não farei mais isso. 

Seu olhar está confuso. 

Você viu o verdadeiro navio de Volcana por aqui? ele segue com os questionamentos.

Vi.

Você já seduziu alguém para que ele comprasse um navio falso?

Sim.

Você sabe cozinhar?

— Sei.

Você colocaria veneno na comida do seu mestre?

Não.

Por que não?

Faço uma pausa e respiro fundo. Se continuar nesse ritmo, falarei o que não devo.

Ele me deu um lugar seguro para viver respondo, olhando ao redor.

Nunca vi um escravo ser grato ao seu dono comenta ele.

Sua incredulidade não me espanta. Humanos são movidos por suas emoções, o que, na maioria das vezes, acaba em desastre. 

Não pensa em ir embora? pergunta John. 

Seu interrogatório não termina. Por que me submeto a esta situação? Quantos anos este moleque tem? Meu trabalho era apenas lhe dar prazer. Paciência, Rubi.

Logo se vê que você é uma criança ingênua comento, juntando toda boa vontade que me resta Para onde eu iria?

Não sei, mas você é um ser de mana. Querer a liberdade e voltar para os seus seria  natural.

Uma gargalhada salta para fora da minha boca. 

Você é daquelas crianças que acha que pode salvar todos os trevosos desse mundo?

Não são trevosos! responde John, muito ofendido com o termo que usei. São criaturas boas feitas pela Deusa Mana, são mágicas! 

Concordo com a parte do mágicas, mas discordo que somos criaturas boas argumento.

Eu nunca conheci um ser de mana que fosse mau contrapõe ele.

Você conheceu algum que tivesse poder?

Ele se cala. Seu olhar abaixa e corre de um lado para o outro, buscando em sua mente uma resposta que ela não possui. 

Acho que acabei com a fantasia dessa pobre criança. Suspiro.Com um toque em seu ombro, trago sua atenção para meu rosto. 

Entenda, John, as criaturas de mana foram escravizadas por algum motivo. Não defendo os humanos, contudo é injusto achar que só os seres de chi são cruéis.

Você… Está certa conclui o garoto. 

Seus olhos arregalam.  O raciocínio óbvio que nunca lhe passou pela cabeça, cai no seu colo de repente. É como se o mundo dele tivesse se expandido.

Como eu não percebi isso? questiona-se. 

 Ele levanta num salto, pronto para sair.

Já me decidi! – diz ele afoito Mas preciso ir agora.

Decidiu? pergunto. Decidiu o quê? Espere…

Que mudança repentina é essa? Quando levanto para tentar segurá-lo, ele cai em meus braços.

John! exclamo.

O peso quase me derruba. Quando consigo me firmar, sinto ele estremecer. Está febril.

Tudo bem, foi só uma tontura. Acontece às vezes explica ele, se esforçando para ficar em pé. 

Uso meu corpo como apoio e o sento na cama encostado-o na cabeceira. Seus olhos não estão mais verde oceano, e sim um dourado chi. Esse garoto não vai aguentar.

Com que frequência tem essas tonturas? pergunto, pois este sintoma me preocupa. Preciso de mais informações. 

Elas têm ficado mais intensas nos últimos meses diz ele, numa tentativa de disfarçar seu mal estar Não precisa se preocupar, logo passa. 

Assim que ele conclui a frase, seu nariz começa a sangrar.

Isso não é bom, garoto digo.

Corro para pegar alguns panos para estancar o sangramento. Meu guarda roupa é o sonho de consumo de qualquer mulher humana. A extensão de três paredes, do chão ao teto, repletas de vestidos, acessórios e sapatos. Uma penteadeira embutida contém maquiagens para um exército de escravas. Eu não tenho esperança de encontrar um pano simples em meio a tudo isto. Passo a mão no primeiro tecido macio que vejo e retorno para John. 

Ah! Que droga! reclama ele, levantando a cabeça. Desculpe, Rubi. 

John leva o braço às narinas numa tentativa falha de estancar o sangramento.

Que tipo de Mestre de Chi deixa ele acumular dessa forma?! repreendo-o.

Apresso-me em pressionar vestido contra seu nariz, inclinando a cabeça para frente. Não demora para o caríssimo tecido branco virar um trapo vermelho. 

Você percebeu? indaga ele. 

Como não perceber? retruco. Você transborda energia por todo lado Agora, fique quieto até parar a hemorragia. 

Nos mantemos nesta posição até o sangramento ceder.

Não sei o que está acontecendo explica ele, com o olhar perdido. Eu conseguia controlar, mas está ficando mais difícil. 

Você é idiota? xingo. Quem foi que te ensinou essa bobagem?  Existe um limite de chi que você consegue controlar. A energia extra precisa ser liberada ou seu corpo vai perecer. Isso é básico! 

A raiva cresce em meu peito. Há anos, vi uma cena como esta. Um garoto com grande quantidade de chi que era usado por seus mestres. Eles drenavam sua energia durante as horas de meditação com a desculpa de que isso servia para autocontrole. Quando o menino fugiu dos treinos, apresentou os mesmos sintomas de John. Pouco tempo depois, ele morreu em uma explosão de chi.

Tem cura? pergunta o jovem, me trazendo de volta das minhas lembranças. 

Garoto! chamo sua atenção, fechando os olhos por um instante para manter a calma. Não estamos brincando aqui! Se você liberar sua energia de forma rápida ou errada, destruirá a ilha! Mas não se preocupe, vou levá-lo até sua namoradinha e vocês farão sexo até amanhã de manhã. Isso deve resolver.

O QUÊ?! grita ele, quase pulando da cama. Não! 

Como assim, não? Você está morrendo!

A gente não faz… essas… coisas… Ele desvia seu olhar.

Vocês não são um casal?

Não! responde John.

Seu rosto exprime o quão minha pergunta foi absurda para ele. 

Sayuri é minha amiga de infância! complementa, com um tom de cupa em sua voz. 

Ó, Deusa Mana, por favor, tenha piedade de mim. Mantenha minha mente serena para não esfaquear esta criança tola. Respiro fundo e argumento:

Mas ela certamente ficará com você se souber que vai ajudá-lo sugiro, dando de ombros. Ela já parecia  no cio hoje mais cedo.

Ele segura meu rosto com firmeza me encarando.

Nunca mais fale assim da Sayuri!

Seus olhos encontraram os meus. Um arrepio correu pela minha espinha. 

Desculpe. Fui longe demais.

O que estou fazendo? A resposta está bem na minha frente, só não quero aceitá-la. Mas se nada for feito, todos aqui correremos risco. O sangramento parece ter parado. Respiro fundo, me sento em seu colo e aproximo meu rosto do dele.

O que… O que você está fazendo? Assusta-se John. 

Vou descobrir o que você prefere explico, segurando sua face frente a minha. Porque, para minha surpresa, não é uma jovem loira de olhos azuis.

Eu não vou dormir com você! 

Acredite, você também não faz o meu tipo contraponho.

 Olho para o lado na busca das palavras corretas para convencê-lo.

No estado que está começo minha argumentação , você tem duas opções: transar comigo e daremos um jeito de ser o menos traumático possível, ou ir embora assim, perder o controle e machucar sua querida Sayuri. Sem contar o risco de acabar com todos na cidade.

Minhas palavras o atingem. Seu rosto transparece a preocupação.

Precisava ser tão direta assim? resmunga o garoto, olhando para baixo.  

Você parece uma menininha virg… Espera aí! Você é virgem!

Fala mais alto, o pessoal do salão não ouviu! ele me repreende..

Desculpe. Não esperava por isso. Seu chi me diz outra coisa sobre você.

Ele está ficando vermelho.

Eu vou… Ficar com você concorda John, olhando para o lado. 

Tudo bem. Que tal fazermos um contrato? proponho. 

Você consegue fazer contratos? pergunta ele, com seus olhos brilhando.

Raposas estão entre as criaturas que podem fazer contratos. 

Ainda não sei se esta condição é boa ou ruim. A deusa Mana, permite que alguns seres façam acordos com humanos.  Numa tentativa de harmonizar as raças. Infelizmente, seu plano falhou.

Não quero! recusa ele.

Você testa minha paciência, criança! Levo a mão à cabeça.

Contratos ligam a vida das pessoas. Não consigo me prender a ninguém.

Entendo… Contudo, preciso que me prometa algumas coisas.

Diga Ele se ajeita e olha fundo nos meus olhos.

Não faremos sexo além desta noite, a menos que seja caso de vida ou morte. Não falaremos mais sobre isso. Ninguém, principalmente Sayuri, nunca ficará sabendo.

Acho um pouco exagerado.

Talvez um dia você me agradeça por essas condições.

Prometo.  Seus olhos dourados me encaram com seriedade.

Agora, me diga, você tem alguma preferência?

Ele hesita e seu rosto cora ainda mais. 

Te… Tenho sonhado com uma garota. Ele abre um sorriso tímido.

Devo admitir que este humano é intrigante. Onde foi parar aquele comerciante seguro de si de agora a pouco?  Preciso encorajá-lo: 

Ora, me conte mais. Ela mexe com você? 

Sim. John mal consegue me encarar.

E como ela é?

A minha visão não é muito clara, mas ela me faz perder o controle.

Sinto seu corpo reagindo. Sua postura está mudando.

Não consegue lembrar de nenhuma característica? Posso reproduzi-la para você.

Ela tem longos cabelos pretos e…

E…

Ele recua.

Você vai achar que sou maluco.

Não vou. Conte-me. Ou prefere que eu veja?

Ver?

Posso entrar na sua mente e ver, se você deixar.

Você lê mentes?

Essa criança perde o foco a cada minuto!

Eu não leio mentes. Mas consigo ver o seu objeto de desejo se você quiser que eu veja.

Veja! ele se empolga.

Encosto minha testa na dele.

Agora pense nela.

Estou pensando.

Consigo ver a imagem. Não acredito nos meus olhos! Demoro mais que o normal tentando entender como é possível ele sonhar com esta criatura. Sinto o corpo dele tremer.  Afasto-me.  Essa pobre criança está perdida. Suspiro e acaricio seu cabelo, enquanto pergunto: 

Você sabe que ela não é humana?

Sei… Sinto a dor em sua resposta. Também sei que não existe…

Coloco meu dedo sobre seus lábios o impedindo de continuar falando. Seu coração está acelerado e seu chi ficou instável. Ele está apaixonado por ela. Vamos acabar logo com isso.

Tudo bem, feche os olhos – peço.

Visualizo a menina que ele deseja. Levo alguns segundos para fazer a transformação, pois titubeio sobre esta ser a decisão certa. Não tenho  escolha. 

Pode abrir aviso, colocando a mão em seu rosto.

Assim que ele me vê, suas feições se transformam.  Agora reconheço que seu chi me mostrou. Um predador. Antes que qualquer palavra seja dita, ele me beija. Sinto que este garoto fará valer cada moeda de ouro que pagou por essa noite.

Na manhã seguinte, acordo com a luz do Sol invadindo o quarto. Não vi John partir. Ao olhar para o lado vejo uma flor sobre o travesseiro. Até que o garoto sabe ser romântico. O que eu fui fazer?  Bom, era isso ou morrer.  Já foi. Não pensarei mais na noite passada. Amanhã ou depois, eles partirão e nunca mais vamos nos encontrar. É melhor desse jeito, pois acho que não conseguirei encarar minha pequena salvadora.

Enquanto tomo banho, percebo marcas em meu corpo. Moleque desajeitado… Esboço um sorriso ao lembrar de tudo que aconteceu.  Acho que entendo porquê ele não procura Sayuri. Para uma humana, seus toques seriam dolorosos. 

Após o banho, me dirijo à cozinha para fazer uma refeição. Antes de chegar lá, escuto vozes alteradas vindas do salão. Corro para ver o que está acontecendo.

Quando entro no recinto, vejo meu mestre com o rosto parecendo um tomate.             Garoto insolente! grita Baltazar, batendo na mesa.

John está recostado na cadeira. Ao ser ofendido, apenas suspira e pondera:

Acalme-se, eu apenas quero fazer um contrato de chi. Se o que está no anúncio é verdadeiro, não tem motivo para o senhor se zangar.

O homem parece que vai explodir, quando pergunta:

Você está questionando a minha honra?

Estou responde John. 

A resposta faz Baltazar ficar sem reação.

São negócios e eu não quero perder explica o garoto. 

Meu mestre respira, fundo fazendo esforço para manter o controle.

Duvido que você possa pagar o preço desse navio! Ele é histórico! Você não seria capaz de imaginar a grandiosidade da Imperatriz Volcana!

John levanta uma sobrancelha. Ele se ergue diante de Baltazar, fazendo-o erguer o rosto para encará-lo. 

Coloque seu preço começa o garoto. Eu volto amanhã para ouvir sua resposta.

O jovem sorri e sai batendo a porta

Rubi! berra Baltazar.

Estou aqui, senhor. Aproximo-me pelas suas costas.

O que você descobriu sobre esse fedelho? Ele vira para mim.

Ele é um Mestre de Chi, senhor.

Isso eu percebi no momento que ele quis fazer um contrato de chi! Alguma outra informação?

Eu não subestimaria o garoto, senhor.

Assim que concluo a frase, sinto um tapa em meu rosto. 

Pedi informação, não conselho!

Volto meu rosto para frente. 

Não consegui mais nada. Sinto muito. 

Baltazar me puxa pela coleira e me joga no chão.

Vadia inútil! O que você falou para ele?

Nada, senhor.

Cadela mentirosa!

Depois dessas palavras, ele pega uma cadeira e a joga sobre mim. Encolho-me e tento proteger minha cabeça com os braços. Ele torna a pegá-la e me bate até que ela esteja desmontada. 

Desgraçado! Sinto alguns ossos quebrando. Não consigo respirar direito.

Esse fedelho não vai levar meu navio! Pelo menos, não vivo.

O que vai fazer, senhor? Esforço-me para perguntar.

Cale a boca!

Ele chuta minha boca.

Homens! chama Baltazar.

Três de seus empregados de confiança aparecem.

Encham o navio de Volcana com explosivos. Quando aquele garoto metido a esperto embarcar com sua querida namoradinha, vamos fazer eles voarem pelos ares.

Sim, senhor.  Eles concordam.

Não! Uma dor toma conta do meu peito. Preciso avisar John e Sayuri.

O senhor vai destruir seu próprio navio? indago.

Já mandei você calar essa merda de boca! Ele me ergue pelo pescoço. Antes de irem, prendam essa raposa safada para que ela não avise seu amante. 

Ele se aproxima do meu ouvido e sussurra:

Você acha que eu não percebi seu interesse nesse moleque? 

Arrastam-me até o quarto. Eu preciso fugir! Tenho que avisá-los! 

Por favor, Rubi começa um dos capangas.  Não tente escapar. Temos ordens de matá-la se o fizer.

Essa coleira! Sempre ela! Se ao menos eu pudesse me dar ao luxo de arriscar minha vida… Perdoem-me, crianças. Não posso ajudá-los.

 Lágrimas brotam em meus olhos. Quanto tempo faz que elas não escorrem pelo meu rosto? É impossível contê-las. Elas se intensificam e trazem consigo uma onda que há muito estava presa. Não consigo parar o choro, os gritos, a culpa:

Desculpe! Desculpe!

            

 

 

Amanheceu o outro dia. Não consegui dormir, mal consigo me mover. Baltazar me obriga a voltar para forma de raposa. A dor da transformação é quase insuportável no estado em que estou. Sou arrastada até a frente do Casa Noturna, onde acontecerá o espetáculo organizado por ele. O cretino faz questão que todos vejam a sua honestidade.

Estou tremendo. Não sei dizer se é pela dor, ou por medo do que está por vir. Vejo John se aproximando. 

Ele traz consigo apenas uma maleta. Quando para em frente ao estabelecimento, questiona:

            Você chamou uma plateia?            

Quero que todos testemunhem nossa negociação, para que não haja dúvidas sobre meu caráter  explica baltazar. 

Por mim, tudo bem.

Tento sinalizar, mas ele não olha para mim.

Você já colocou o preço? pergunta John. 

Quero um milhão de moedas de ouro. Baltazar o encara.

O garoto franze o cenho, leva a mão ao queixo e comenta:

Poxa, um milhão de moedas é uma quantia problemática.

Eu sabia que não ia ter suficiente para me pagar  ri ele. Viram pessoal! Um tratante!

Os burburinhos começam. Para mim o blefe é um alívio. Vá logo embora!             Nunca disse que eu não tenho esse valor interrompe o garoto. Apenas acho uma quantia complicada para carregar por aí. Quantos baús vocês acham que seriam necessários para conter tanto ouro?  Que tal uma contraproposta menos volumosa?

Algumas risadas começam na multidão. Baltazar se infla, mas mantém a pose contrapondo: 

Estou ouvindo. 

John vai até meu dono e abre a maleta mostrando seu conteúdo.

O que você acha de dez cristais de água?

O rosto rosado de Baltazar empalidece. 

Eles valem dez vezes mais que sua proposta diz John. Sinceramente, achei que fosse pedir um pouco mais, então vim bem preparado. 

A plateia, que deveria estar ao lado do proprietário da Casa Noturna, foi conquistada pelo garoto. 

Eu sei quanto valem, pirralho insolente! 

Meu mestre tenta resgatar a vantagem na conversa:

Acho muito suspeito alguém como você ter essas pedras. Como você as conseguiu?

Informações não fazem parte da negociação. Vai aceitar minha proposta ou não?

Baltazar parece uma bomba prestes a explodir. Mas mantém sua postura. Tenho certeza que se não fosse por ser plano assassino, ele já teria mandado prender o garoto. 

Aceito responde ele.

Ótimo, vamos ao contrato! Vou explicar para que o pessoal aqui entenda como funciona. De acordo?

De acordo.

John se vira para as pessoas e inicia sua explanação: 

Será apenas um aperto de mãos. Eu direi o contrato e ele, se concorda ou não. Após o contrato selado qualquer tentativa de quebrá-lo ou descumprimento de suas regras, levará a morte.

A população se assusta com as últimas palavras.

Mas não temos com o que nos preocupar. Somos homens de palavra, certo Baltazar?

Certíssimo.

John coloca a maleta aberta no chão. Em seguida, Baltazar larga o anúncio do navio sobre as pedras. 

Eles se aproximam e dão as mãos. 

Eu, Mestre John John, invoco um contrato de chi!

Uma luz dourada cerca os dois. Vejo as pernas do meu mestre tremendo. Aposto que nunca participou de um contrato antes.

Agora direi os termos no nosso acordo. Eu, John John pago a você Baltazar Bust a quantia de dez cristais de água já refinados e verdadeiros, em troca do seu pertence,  também verdadeiro, que está neste anúncio. Você confirma ser Baltazar Bust?

Confirmo.

Você está ciente dos riscos deste contrato?

Estou.

Você concorda com os termos ditos por mim?

Concordo.

Assim que meu dono responde, a luz dourada desaparece. O público aplaude o espetáculo. Os dois se afastam.  John se abaixa, junta a maleta e a entrega para Baltazar dizendo:

Pronto. Aí estão suas pedras.  Agora quero minha parte.

Justo. Vou pedir para meus homens o acompanharem até o navio.

Pare! Menino tolo! Você disse que não fazia contratos! Mentiroso! Comprou a própria morte! A culpa está me consumindo. Preciso fazer algo! Não posso deixá-lo embarcar!  Mas se me mover, será o meu fim. Que tipo de escolha absurda é essa?! Por que me importo tanto com o humano?!

Navio? o garoto pergunta.

Sua dúvida chama minha atenção.

Sim, o navio da Imperatriz Volcana conforme nosso contrato Baltazar com estranhamento.

Não lembro de ter dito que queria o navio John fala coçando o queixo.

Está de brincadeira, moleque? Você pediu o navio do anúncio! Leve-o!

Eu disse a palavra navio?

Não, mas naquele papel só tem o nav… Baltazar parece ter sido atingido por um balde de água gelada. Suas pernas falham, mas seus homens correm para segurá-lo.

Não entendo o que está acontecendo. Então John sorri para mim, apontando para o retrato. Lá estou eu, ao lado de meu exibido mestre.

Agora você é minha, Rubi.

Você me enganou! Eu exijo quebra de contrato! Baltazar grita.

O cenho de John se fecha, e sua voz baixa alguns tons:

  Cuidado com o que deseja, velhote. 

Essa mudança foi suficiente para fazer meu ex mestre entender o recado. Baltazar joga a chave da minha coleira para o garoto.

John se aproxima de mim. Sua expressão está relaxada novamente.

Vamos embora diz ele, enquanto me liberta meu pescoço da Clotilde. Sayuri está nos esperando no barco.

 

 

 

Faz alguns dias que estamos no mar, eu me mantive em forma de raposa para meus ferimentos se recuperarem mais rápido. Acho difícil encarar Sayuri, mas estou acostumando.

Rubi. chama o capitão. 

Ele e a imediata estão sentados na cozinha. Suas expressões me preocupam. Aconteceu alguma coisa?

Agora que já se recuperou, precisamos conversar com você Sayuri começa.

Um frio corre pela minha espinha. Seja o que for, preciso aceitar. Eles são meus novos donos. Respiro e volto à forma  humana.  John vira o rosto em sinal de respeito a minha nudez. Sayuri me alcança algumas peças de roupa.

Ela já está pronta, Jeje. Pode olhar.

Jeje?

Nós te chamamos aqui, porque precisamos saber o que pretende fazer daqui pra frente fala John.

Eu farei o que me ordenarem respondo.

Rubi, você não entendeu? pergunta o garoto.

Entender? 

Você não é mais escrava. Eu nunca escravizaria uma amiga diz ele, ao perceber que não estou compreendendo.

Amiga… repito suas palavras para tentar acompanhá-las.

Sim! afirma Sayuri

Então… estou livre… Meu cérebro está demorando para processar. 

Queremos saber se vai continuar viagem com a gente, como nossa companheira, ou se quer que a deixemos em algum lugar para seguir sua vida John explica.

Quero ficar com vocês! respondo tão depressa que até eu me surpreendo.

Ótimo! Conseguimos uma tripulante! Sayuri comemora.

Eu prometi, não prometi? John se gaba. E ela sabe cozinhar!

Isso não está certo. Preciso falar para eles. Olho para baixo tentando criar coragem.

O que foi, Rubi ? pergunta minha imediata.

Eu preciso fazer uma pergunta e contar algo para vocês. Depois disso vocês decidem se continuarei aqui ou não respondo.

Pergunte fala John, recostando-se na cadeira. 

Você disse que não fazia contratos. Por que fez um com Baltazar?

Ele ri e responde:

Aquilo não foi um contrato. Foi apenas um show de luzes douradas. Esse tipo de magia é muito rara, supus que ninguém nunca tivesse visto acontecer antes. Então inventei uma cerimônia. Estou surpreso de ter enganado você. 

De fato enganou. Estava com minha mente em outro lugar, não consegui prestar atenção na sua ladainha contraponho.

Todos os meus pensamentos estavam focados em uma forma de salvar você, garoto imprudente. Pensando agora, foi tudo uma grande bobagem. A vida dele nunca esteve em risco.  

Eu também preciso contar que… minha voz está vacilando.

Calma, você pode contar o que quiser. Não estamos aqui para julgar o seu passado. Sayuri tenta me acalmar.

Acho que é melhor eu mostrar.

Começo a tirar a roupa.

O que está fazendo? pergunta John, virando o rosto.

Por favor, olhem. Prometo que não precisarão olhar nunca mais. Mas preciso que vejam dessa vez.  Peço desculpas adiantadas a você, querida Sayuri.

Termino de tirar a roupa.

Essa não é minha verdadeira forma. Volto ao meu corpo original. Eu sou…

Lindo! Sayuri deixa escapar. Quero dizer… macho!

Cubro minhas partes com a cauda. John, não diz uma palavra.

Desculpe-me capitão peço.

A vergonha que a há muito eu não sentia, me toma por completo. Nem lembro quantos anos fazem que não uso meu corpo masculino. 

Acho muito bom você se desculpar, seu cretino ele começa.

Sua face demonstra a confusão interna que eu causei. Entendo sua raiva. Estou disposto a partir assim que ele ordenar.  

Como você ousa ser mais bonito do que eu? conclui e sorri.

Neste momento, eu que estou perdido. Que tipo de reação foi essa?

Neste navio, não importa o seu passado. Nem se é macho ou fêmea. Você será nosso companheiro daqui para frente. Enquanto quiser ficar, será bem-vindo diz John.

Suspiro. O ar parece ter voltado aos meus pulmões. Esse garoto é mesmo estranho. Mas acho que conseguirei viver com estas crianças.

Meu nome é Rub apresento-me, pela primeira vez em muito tempo.

John vem até mim e aperta minha mão.

Bem-vindo a tripulação, Rub.

Eu odeio esta coleira. E minha raiva se tornou ainda maior quando meu dono a apelidou “carinhosamente” de Clotilde. 

Peguei a trevosa! — comemora Allan, quando puxa a corrente e me arrasta até a praia. — Vamos, James!

Lá vem o mesmo discurso de sempre. 

Sai desse corpo e vira gente! brada James, seguindo o parceiro.

Rápido, sua raposa maldita! começa Julio. A gente sabe o que você faz na Casa Noturna!

 Apenas ignoro. Sinto meu pescoço estalando com o puxão.

Batam até ela chorar! diz Allan. Um dia essa vadia vai ceder! Rápido, antes que o dono dela descubra!

Não me importaria de divertir algumas crianças desesperadas. Porém, se o fizer sem receber pelo serviço, meu mestre não me perdoará ou, pior, irá puni-los. 

Eles descarregam toda sua frustração em mim.  Seus socos e chutes não machucam tanto quanto gostariam, mas finjo que sim.  No fundo, sinto pena desses garotos. 

 Eu os vi crescendo, e agora precisam lidar com a pressão de ainda não ter dormido  com uma mulher. Humanos e suas humanices. É difícil compreendê-los.

Enquanto estou em minha atuação de desmaio, ouço uma voz feminina gritando

Parem com isso! Soltem ela!

O alerta fez os agressores fugirem. Meu faro revela que um casal se aproxima. Não consigo resistir a curiosidade e abro os olhos. Uma garota de cabelos ensolarados se ajoelha ao meu lado e coloca minha cabeça em seu colo. Seu toque é  como brisa de verão.

Pronto diz ela, sorrindo.   Eles já foram embora. Está segura agora.

Say pergunta o jovem que a acompanha. É uma raposa de mana prateada?

Ele tenta me tocar, mas todos os meus instintos me fazem reagir e mordê-lo. O garoto puxa a mão por reflexo. Graças a sua rápida atitude, meus dentes só arranharam sua pele.

Espero que ele me empurre, xingue, bata. Entretanto, nada acontece.

Por que você o mordeu? pergunta a menina.

A culpa não é dela, Sayuri. diz o garoto, que me olha e pisca. Eu não devia ter me aproximado tão de repente. Certo? 

O que estou fazendo? É apenas uma criança de chi. Por que me assustou tanto? Passado o susto, ganho carinho na minha orelha e balanço a cauda em sinal de paz. Os ferimentos em sua mão pouco sangram. Ele não parece se importar com a dor, mas sei que está fingindo muito bem. 

Hum…Isso é gosto de baunilha? Aproximo-me e lambo as pequenas lesões que causei. Ele tem gosto de baunilha! De que é feito esse humano? Meus devaneios acabam quando Sayuri se agarra ao meu pescoço. 

Quem é a raposinha boazinha? pergunta ela.   Ela pode vir com a gente, Je… John?

Raposinha? questiona o rapaz, levantando a sobrancelha Acho que ela tem dono aponta para a Clotilde.

E nós não podemos… Roubá-la?

 Ela se aproxima do companheiro, fazendo uma expressão comparável aos melhores cachorros pidões que já conheci. Confesso que estou quase me roubando por ela.

Sinto muito, Say. Só podemos mantê-la conosco até acharmos seu mestre.

Como esse cretino consegue dizer não?! Espera, o que estou pensando? Se ele me roubar eu explodo! Preciso agradecê-lo depois. Essa garota é um perigo!

Quero fazer algo para retribuir sua gentileza. Porém, meu pensamento é interrompido por um rugido. Coloco-me em posição de ataque. Como é possível um animal com tal ronco não estar ao alcance dos meus olhos? Será uma quimera invisível? 

O ruído continua e está próximo. Não sinto seu cheiro. Observo a área à nossa volta. Apareça!

Calma, raposinha a menina chama minha atenção.  Seu rosto está corado e suas mãos sobre o estômago.

Eu sempre disse que sua barriga parecia um monstro debocha John.

Você prometeu que conseguiria um tripulante que saiba cozinhar! Não aguento mais comer carne seca ou passar fome reclama ela, fazendo beicinho.

Desculpe, nós vamos conseguir um cozinheiro. Por agora, vamos procurar um lugar para comer. 

Ele acaricia o seu cabelo. 

— Pode me perdoar? 

            A jovem encara os olhos verde oceano de John, suspira, vira o rosto fazendo birra e diz:

Que não se repita.

A fome de uma garota humana pode ser assustadora. Quanto mais observo esses dois, menos entendo sua relação. 

Eles seguem para a cidade na busca de um restaurante. Decido acompanhá-los por mais tempo. Ainda faltam algumas horas para anoitecer. Ando alguns passos atrás do casal para evitar que os moradores os encarem com desaprovação. 

Os dois param em frente a um pequeno estabelecimento que possui mesas do lado de fora. O dono logo vem recebê-los:

Bem-vindos! Vão entrando…

Nós vamos ficar aqui fora começa John. Estamos com essa raposa até encontrarmos seu dono.

John anda até mim e acaricia minha cabeça. Garoto tolo. 

Entendo. Lamento, não aceitamos trevosos aqui o proprietário fecha o cenho Bem-vindos a realidade dessa ilha, crianças. Começo a me afastar, mas John segura a corrente.

É uma pena.  Vamos gastar nosso ouro em outro lugar, querida. 

 John começa a brincar com um saquinho de pano repleto de moedas, o jogando para cima e tornando a pegá-lo. O tilintar do metal batendo, é como um feitiço que hipnotiza o homem.

Espere, senhor! diz o homem num sobressalto. Não vamos nos precipitar. É claro que toda regra tem uma exceção. Vejo que vocês vêm de fora da ilha e não conhecem nossos costumes. Vamos esquecer isso. Voltem, sentem-se.

Sayuri o fulmina com os olhos, mas não diz uma palavra. 

Os dois retornam,  escolhem uma mesa e aguardam as iguarias, que são trazidas uma após a outra. Tanta comida desperta meu apetite. John me oferece um pedaço de carne. Recuso. Será que este garoto estúpido desconhece as leis do Governo Mundial de Orbis? Alimentar o escravo de outra pessoa pode gerar problemas para si e para o estabelecimento. Deito-me e aguardo. 

Assim que acabam a refeição, John chama o proprietário.

Obrigado pela comida. Estava muito boa.

Que bom que agradou ao senhor.

John coloca o ouro sobre a mesa.

Obrigado, senhor.

Os olhos do homem brilham ao ver as moedas. Porém, antes que ele salte sobre elas como um abutre na carniça, John as encobre com sua mão.

Eu gostaria de uma informação diz o garoto, com um toque de malícia. Será que você poderia nos ajudar?

Sim, claro. O que quiserem.

Say, por favor, mostre o papel a ele.

A garota tira um papel do bolso e o desamassa. 

Ah! Vocês vieram aqui pelo navio da Imperatriz Volcana? pergunta o proprietário, ao ver do que se tratava.

Essa conversa chama minha atenção. Quero saber do que se trata, mas apenas levanto as orelhas para ouvir melhor.

Na verdade, nós paramos para reabastecer começa Sayuri.   Mas assim que John viu o anúncio do navio, ele ficou interessado.

Fiquei? 

Você não tirava os olhos desta imagem.

Nada passa por você, não é? conclui John, com uma piscadela para a amiga.

Em seguida, voltou a atenção para o dono do local.

Realmente estou muito interessado neste anúncio.  Sabe onde podemos encontrar o sujeito que o fez?

Então é por isso que eles estão aqui. Preferia que não encontrassem aquele vigarista. Lembro-me de quando posamos para o retrato do anúncio. Ele me obrigou a ficar ao seu lado, enquanto exibia aquele casco enferrujado que mal flutuava.  

Rubi! uma voz fina de doer nos ouvidos me chama.

Como por invocação, meu mestre surge atrás de nós. Ele se aproxima, fazendo John e Sayuri levantarem para cumprimentá-lo.

Boa tarde, senhor começa John. Esta criatura é sua?

A postura do garoto muda. Está ereto e seu semblante parece sério. Será que a minha idade avançada está danificando minha audição? Ou ele engrossou a voz? Se não fosse por meu faro, eu diria que ele foi substituído por outra pessoa. De repente, minhas observações são interrompidas por meu mestre: 

Sim, ela me pertence responde ele, olhando o casal de cima a baixo. Não reconheço seus rostos, são de fora da ilha?

Perdoe-nos a falta de educação. Sou Capitão John John e esta é a minha imediata, Sayuri. Estávamos de passagem por essa ilha, mas este retrato me chamou atenção.  

Ouvi falar de você. O jovem capitão que está fazendo acordos comerciais por toda região. Dizem que sabe negociar.

Um sorriso tímido cruzou os lábios de John. 

Fico lisonjeado por alguém de sua estirpe conhecer um mero negociante como eu. Sou apenas um aprendiz tentando ganhar a vida.

Gostei de você, garoto. Sabe seu lugar. Ele acaricia a enorme pança. Sou Lorde Baltazar Bust. Venha ao meu estabelecimento esta noite. Basta perguntar pela Casa Noturna, que qualquer um saberá lhe indicar o caminho até lá. Amanhã, falaremos de negócios. 

Sou muito grato pelo convite. Estarei lá. 

John agradece de forma educada. A satisfação está estampada em sua face. Tenho a ligeira impressão de ter visto um risco dourado passar por seus olhos. Mas logo seu cenho se altera. Creio que o motivo de tal transformação seja um frio na espinha que atingiu tanto a ele quanto a mim. Ambos olhamos para Sayuri. Ela parecia estar pronta para matar seu companheiro. Posso jurar que estou vendo uma aura preta em torno dela. Espero por um chilique, entretanto o silêncio é mantido. 

Percebendo a reação da garota, Baltazar se despede: 

Com licença, vou levar meu animal. Ela precisa se aprontar.

Observo os dois se curvando em respeito a retirada de Baltazar. No caminho para casa, meus pensamentos permanecem focados naquelas duas crianças. Aquele garoto está com muita energia acumulada, nunca senti tanto chi em um humano. Talvez ele não tenha percebido ainda, mas logo vai começar a prejudicar seu corpo. Preocupo-me com Sayuri, pois ela pode se machucar se ele perder o controle. 

Ora, o que estou pensando? São humanos, não devia me preocupar com eles. Há algumas décadas eu jamais teria esse tipo de pensamento. O tempo é mesmo capaz de mudar as criaturas.

O que você estava fazendo com aqueles dois? pergunta meu mestre.

Odeio quando ele me faz perguntas na rua, pois preciso voltar a forma humana para falar. Apesar magia de transformação ser rápida como um estalar de dedos, é incômoda. Assim que me estabeleço em meu corpo bípede, respondo:

A menina me salvou de alguns delinquentes 

Que bela criatura, Baltazar! grita um homem.

A noite com ela será leiloada hoje! Apareça na Casa Noturna, mas só se puder pagar!  responde meu mestre.

Sabia que não estava interessado na minha resposta, e sim em expor meu corpo nu pela rua. Ele adora. Mantenho as orelhas e a cauda de raposa para que todos saibam que sou um ser de mana, afinal, mulheres humanas não podem ser escravas. Elas também vendem seus corpos, porém, sem coleiras.

Sorria e abane esse seu rabo. Precisamos de clientes.

Sim, senhor.

Faço algumas provocações aos rapazes que passam pelo nosso caminho. Opto pelos acompanhados, só para ver as reações ciumentas. Baltazar me puxa pela coleira.

Cadela desaforada! Escolha os homens solteiros! o mestre me xinga em voz alta.

O engraçado é que ele mesmo sempre me diz que ganha rios de ouro com a infidelidade. E nesse joguinho de hipocrisia, seguimos até a Casa Noturna.

 

 

 

É hora do show e o salão está lotado. 

Boa noite, senhores! Bem-vindos! inicia Baltazar: Hoje, nossas meninas prepararam uma apresentação especial para entretê-los!

A música começa. Não participo dessas apresentações, pois por mais que meu mestre me torturasse, nunca consegui dançar nem cantar. Entretanto, possuo outras habilidades que rendem tanto quanto.

Aplausos ressoam. O show das outras garotas deve ter acabado. Coloco-me em posição para entrar no palco.

Que beleza de show, meninas! elegia Baltazar enquanto elas descem para a plateia, onde seus clientes as aguardam.

Chegamos ao auge da noite! Vocês a conhecem, ela é tímida. Vamos chamá-la, senhores.

Rubi! Rubi! Rubi! Começam os gritos.

Caminho até o centro do palco com a cabeça baixa e o público vai ao delírio, mas sinto um cheiro conhecido e isso quase me faz retroceder. Em todos esses anos, eu nunca travei. Não quero seguir. Não quero aparecer assim na frente dele.

Baltazar vem até mim e vê minha respiração acelerada. Olho para aquele rosto redondo, esperando por uma reação. Sua face é pura malícia.  Desgraçado! Ele percebeu minha hesitação. 

Ora, nossa pequena Rubi está insegura. Acho que é falta de incentivo, senhores.

Começa uma chuva de moedas no palco.

Preciso me controlar! Meus clientes estão esperando por mim. O garoto é apenas mais um. Não tenho como recuar. Pelo menos, Sayuri não está aqui. 

Chego até a frente do palco, levanto a cabeça e sorrio:

Obrigada! Rubi fica muito feliz com seu incentivo Digo com uma voz meiga.

Gritos e assovios me ensurdecem por alguns segundos.

Aí está a nossa estrela!  Baltazar retoma a atenção. Então, senhores, vamos falar de negócios. Afinal, nossa Rubi é uma raridade. Os lances começam em cinquenta moedas de ouro.

Vaias e reclamações começam.

Senhores! Temos aqui uma raposa prateada. Alguns homens nunca vão sequer colocar os olhos sobre ela. A Deusa Mana caprichou nesta criatura para que ela pudesse nos servir como nenhuma outra.

Então vem o primeiro lance. Um homem levanta a mão e grita, oferecendo sessenta moedas por mim. 

– Temos o primeiro lance!  Vamos lá, rapazes – incentiva Baltazar, que me olha por um momento. –  Rubi, nossos amigos precisam de um pouco de motivação…

Meus amiguinhos não querem brincar com a Rubi hoje? Faço beicinho.   E se a Rubi for morena?

 Sorrio enquanto passo as mãos por toda e extensão do meu cabelo. Conforme os dados correm pelos fios, o prata torna-se preto. 

Não demorou para uma oferta de setenta moedas surgir. Ainda não é o suficiente. 

Será que loira seria melhor? questiono piscando. 

Inclino a cabeça para trás e a sacudo um pouco. O longo cabelo negro e liso muda de cor conforme as ondulações. Cachos dourados recaem sobre meus ombros assim que me inclino para frente mandando beijinhos à plateia. 

Cem moedas! grita o terceiro. 

Rubi prefere ruiva. digo colocando um dedo na boca, enquanto com a outra mão bagunço os fios loiros tornando-os laranjas. 

Cento e dez!

E se a Rubi ficar menor? Finjo sorrir. 

 Respiro fundo, pois mudanças de tamanho, assim como de forma, doem. Sinto cada osso encolher. 

Cento e vinte!

Que tal brinquedos maiores? Seguro meus seios e aperto duas vezes. Isso faz com que eles dupliquem de tamanho. 

Duzentas moedas!

Duzentas moedas é um excelente valor! O que me diz, Rubi? pergunta Baltazar.

Acho que…

Antes que eu possa responder, um grito me interrompe.

Mil moedas!

O silêncio assola o salão. Conheço essa voz. É como se um raio atingisse meu corpo. Corro os olhos pela platéia, na esperança de não ser quem estou pensando.  Contudo, lá está ele, com a mão levantada. John. Esse moleque não tem noção do que está fazendo.

O queixo do meu mestre quase bate no chão.

Nyah! Você não deve brincar assim com a Rubi! descontraio.

Não estou brincando. Dou mil moedas de ouro por uma noite com você. Isso não é um leilão?

A seriedade em suas palavras arranca o sorriso do meu rosto.  Não… não faça isso, garoto.

Mostre o ouro! interfere Baltazar.

Claro, o ouro! Ele não deve tê-lo. Boa, mestre! Pela primeira vez, fiquei feliz por sua ganância.

Sem problema. Ele está aqui.  

John tira um baú de baixo da mesa na qual está e abre sua tampa.

Baltazar salta do palco para conferir. Sejam falsas, por favor. 

Temos um campeão! – anuncia ele, voltando com um semblante sério, que logo se desmancha. E graças a essa quantia obscena de ouro, a Casa Noturna fará uma rodada de bebidas sem custo para todos os clientes!

A comemoração é grande e a música volta a tocar. Baltazar está sorrindo feito criança com um doce. 

Dirijo-me até meus aposentos. No caminho, Clotilde aperta meu pescoço, fazendo-me parar. Alguns segundos depois, ouço a voz do meu dono ao pé do meu ouvido:

Descubra tudo que puder sobre esse fedelho. Não acredito que pagaria todo esse ouro por você. Ele deve estar tramando algo.

Aceito sua ordem sem  questionar. Suas palavras ferem meu orgulho, mas trazem alguma calma ao meu coração. 

Claro! O Navio!

Entro em meu quarto. O cliente será trazido até mim assim que acabarem de contar as moedas. Seria um bom momento para fugir e deixar essa coleira explodir minha cabeça. Porém, preciso viver, não importa como. Sento-me na cama e aguardo.

A batida na porta me faz saltar. Minha voz falha ao pedir que entre. Seus movimentos são os de um gato acuado. Pelo menos não sou apenas que estou sem jeito. Talvez eu deva quebrar o clima. Encarno a raposa meiga e sorridente. 

O garoto tranca a porta antes de se virar para mim.

Você não precisa fingir comigo diz ele. Deve ser um incômodo agir daquela forma no palco.

 Criança astuta. Levanto uma sobrancelha e cruzo as pernas. 

Você continua me surpreendendo, humano digo. 

Eu? pergunta John, apontando para si com espanto.   Sinceramente, nunca imaginei que você faria tudo que fez naquele palco. 

Aquilo é apenas um truque que qualquer raposa faria. Diga-me, por que está aqui?

Para passar a noite com você responde ele, coçando a cabeça.

Sua convicção é tão falha que me faz rir. Clientes tímidos são raridade. 

Certo. Levanto-me e vou até ele. Então vamos começar digo em seu ouvido.

Espere! 

 Ele foge antes que meus braços o envolvam. Virado para mim, tenta evitar que me aproxime. Estica o braço mantendo seu espaço seguro, à medida que anda para trás.

Prefiro conversar um pouco antes explica ele, conforme caminho em sua direção.

Ao ouvir sua explicação, que é quase uma súplica, desisto da provocação. 

Tudo bem falo, fazendo beicinho. O tempo é seu, você é  quem está pagando.

Faço sinal que ele sente na cama e me sento no chão.

Por favo r diz ele sem jeito, fazendo menção para que eu levante.

Permaneço no chão e aponto para a Clotilde.

Ele faz sinal que compreende com a cabeça e senta-se ao meu lado. 

Vamos direto ao ponto, rapaz. questiono. O que você quer saber?

Cá estamos, de pernas cruzadas como crianças, frente a frente. 

Você gosta deste lugar? pergunta ele, me encarando. 

Que tipo de pergunta idiota é essa? Reviro os olhos.

Responda seu tom muda. Já vi essa transformação antes, no restaurante. 

Não gosto.

A energia dele me incomoda. Está agressiva. 

Seu dono tem muitos escravos? questiona ele.

Suas  feições são calmas. Como pode alguém ser tão contraditório? 

Não posso falar sobre meu mestre explico, enquanto passo o dedo pelo pescoço como se cortasse minha cabeça. 

A mensagem foi bem clara. 

Então vamos falar de você. Você vive com muitos outros escravos?

Sim  Não pude evitar o sorriso.

Você fica linda quando sorri de verdade.

Ele afaga meu cabelo.

Cale a boca! Reajo tirando sua mão.

Não posso te elogiar?

Seus elogios me incomodam.

Tudo bem, não farei mais isso. 

Seu olhar está confuso. 

Você viu o verdadeiro navio de Volcana por aqui? ele segue com os questionamentos.

Vi.

Você já seduziu alguém para que ele comprasse um navio falso?

Sim.

Você sabe cozinhar?

— Sei.

Você colocaria veneno na comida do seu mestre?

Não.

Por que não?

Faço uma pausa e respiro fundo. Se continuar nesse ritmo, falarei o que não devo.

Ele me deu um lugar seguro para viver respondo, olhando ao redor.

Nunca vi um escravo ser grato ao seu dono comenta ele.

Sua incredulidade não me espanta. Humanos são movidos por suas emoções, o que, na maioria das vezes, acaba em desastre. 

Não pensa em ir embora? pergunta John. 

Seu interrogatório não termina. Por que me submeto a esta situação? Quantos anos este moleque tem? Meu trabalho era apenas lhe dar prazer. Paciência, Rubi.

Logo se vê que você é uma criança ingênua comento, juntando toda boa vontade que me resta Para onde eu iria?

Não sei, mas você é um ser de mana. Querer a liberdade e voltar para os seus seria  natural.

Uma gargalhada salta para fora da minha boca. 

Você é daquelas crianças que acha que pode salvar todos os trevosos desse mundo?

Não são trevosos! responde John, muito ofendido com o termo que usei. São criaturas boas feitas pela Deusa Mana, são mágicas! 

Concordo com a parte do mágicas, mas discordo que somos criaturas boas argumento.

Eu nunca conheci um ser de mana que fosse mau contrapõe ele.

Você conheceu algum que tivesse poder?

Ele se cala. Seu olhar abaixa e corre de um lado para o outro, buscando em sua mente uma resposta que ela não possui. 

Acho que acabei com a fantasia dessa pobre criança. Suspiro.Com um toque em seu ombro, trago sua atenção para meu rosto. 

Entenda, John, as criaturas de mana foram escravizadas por algum motivo. Não defendo os humanos, contudo é injusto achar que só os seres de chi são cruéis.

Você… Está certa conclui o garoto. 

Seus olhos arregalam.  O raciocínio óbvio que nunca lhe passou pela cabeça, cai no seu colo de repente. É como se o mundo dele tivesse se expandido.

Como eu não percebi isso? questiona-se. 

 Ele levanta num salto, pronto para sair.

Já me decidi! – diz ele afoito Mas preciso ir agora.

Decidiu? pergunto. Decidiu o quê? Espere…

Que mudança repentina é essa? Quando levanto para tentar segurá-lo, ele cai em meus braços.

John! exclamo.

O peso quase me derruba. Quando consigo me firmar, sinto ele estremecer. Está febril.

Tudo bem, foi só uma tontura. Acontece às vezes explica ele, se esforçando para ficar em pé. 

Uso meu corpo como apoio e o sento na cama encostado-o na cabeceira. Seus olhos não estão mais verde oceano, e sim um dourado chi. Esse garoto não vai aguentar.

Com que frequência tem essas tonturas? pergunto, pois este sintoma me preocupa. Preciso de mais informações. 

Elas têm ficado mais intensas nos últimos meses diz ele, numa tentativa de disfarçar seu mal estar Não precisa se preocupar, logo passa. 

Assim que ele conclui a frase, seu nariz começa a sangrar.

Isso não é bom, garoto digo.

Corro para pegar alguns panos para estancar o sangramento. Meu guarda roupa é o sonho de consumo de qualquer mulher humana. A extensão de três paredes, do chão ao teto, repletas de vestidos, acessórios e sapatos. Uma penteadeira embutida contém maquiagens para um exército de escravas. Eu não tenho esperança de encontrar um pano simples em meio a tudo isto. Passo a mão no primeiro tecido macio que vejo e retorno para John. 

Ah! Que droga! reclama ele, levantando a cabeça. Desculpe, Rubi. 

John leva o braço às narinas numa tentativa falha de estancar o sangramento.

Que tipo de Mestre de Chi deixa ele acumular dessa forma?! repreendo-o.

Apresso-me em pressionar vestido contra seu nariz, inclinando a cabeça para frente. Não demora para o caríssimo tecido branco virar um trapo vermelho. 

Você percebeu? indaga ele. 

Como não perceber? retruco. Você transborda energia por todo lado Agora, fique quieto até parar a hemorragia. 

Nos mantemos nesta posição até o sangramento ceder.

Não sei o que está acontecendo explica ele, com o olhar perdido. Eu conseguia controlar, mas está ficando mais difícil. 

Você é idiota? xingo. Quem foi que te ensinou essa bobagem?  Existe um limite de chi que você consegue controlar. A energia extra precisa ser liberada ou seu corpo vai perecer. Isso é básico! 

A raiva cresce em meu peito. Há anos, vi uma cena como esta. Um garoto com grande quantidade de chi que era usado por seus mestres. Eles drenavam sua energia durante as horas de meditação com a desculpa de que isso servia para autocontrole. Quando o menino fugiu dos treinos, apresentou os mesmos sintomas de John. Pouco tempo depois, ele morreu em uma explosão de chi.

Tem cura? pergunta o jovem, me trazendo de volta das minhas lembranças. 

Garoto! chamo sua atenção, fechando os olhos por um instante para manter a calma. Não estamos brincando aqui! Se você liberar sua energia de forma rápida ou errada, destruirá a ilha! Mas não se preocupe, vou levá-lo até sua namoradinha e vocês farão sexo até amanhã de manhã. Isso deve resolver.

O QUÊ?! grita ele, quase pulando da cama. Não! 

Como assim, não? Você está morrendo!

A gente não faz… essas… coisas… Ele desvia seu olhar.

Vocês não são um casal?

Não! responde John.

Seu rosto exprime o quão minha pergunta foi absurda para ele. 

Sayuri é minha amiga de infância! complementa, com um tom de cupa em sua voz. 

Ó, Deusa Mana, por favor, tenha piedade de mim. Mantenha minha mente serena para não esfaquear esta criança tola. Respiro fundo e argumento:

Mas ela certamente ficará com você se souber que vai ajudá-lo sugiro, dando de ombros. Ela já parecia  no cio hoje mais cedo.

Ele segura meu rosto com firmeza me encarando.

Nunca mais fale assim da Sayuri!

Seus olhos encontraram os meus. Um arrepio correu pela minha espinha. 

Desculpe. Fui longe demais.

O que estou fazendo? A resposta está bem na minha frente, só não quero aceitá-la. Mas se nada for feito, todos aqui correremos risco. O sangramento parece ter parado. Respiro fundo, me sento em seu colo e aproximo meu rosto do dele.

O que… O que você está fazendo? Assusta-se John. 

Vou descobrir o que você prefere explico, segurando sua face frente a minha. Porque, para minha surpresa, não é uma jovem loira de olhos azuis.

Eu não vou dormir com você! 

Acredite, você também não faz o meu tipo contraponho.

 Olho para o lado na busca das palavras corretas para convencê-lo.

No estado que está começo minha argumentação , você tem duas opções: transar comigo e daremos um jeito de ser o menos traumático possível, ou ir embora assim, perder o controle e machucar sua querida Sayuri. Sem contar o risco de acabar com todos na cidade.

Minhas palavras o atingem. Seu rosto transparece a preocupação.

Precisava ser tão direta assim? resmunga o garoto, olhando para baixo.  

Você parece uma menininha virg… Espera aí! Você é virgem!

Fala mais alto, o pessoal do salão não ouviu! ele me repreende..

Desculpe. Não esperava por isso. Seu chi me diz outra coisa sobre você.

Ele está ficando vermelho.

Eu vou… Ficar com você concorda John, olhando para o lado. 

Tudo bem. Que tal fazermos um contrato? proponho. 

Você consegue fazer contratos? pergunta ele, com seus olhos brilhando.

Raposas estão entre as criaturas que podem fazer contratos. 

Ainda não sei se esta condição é boa ou ruim. A deusa Mana, permite que alguns seres façam acordos com humanos.  Numa tentativa de harmonizar as raças. Infelizmente, seu plano falhou.

Não quero! recusa ele.

Você testa minha paciência, criança! Levo a mão à cabeça.

Contratos ligam a vida das pessoas. Não consigo me prender a ninguém.

Entendo… Contudo, preciso que me prometa algumas coisas.

Diga Ele se ajeita e olha fundo nos meus olhos.

Não faremos sexo além desta noite, a menos que seja caso de vida ou morte. Não falaremos mais sobre isso. Ninguém, principalmente Sayuri, nunca ficará sabendo.

Acho um pouco exagerado.

Talvez um dia você me agradeça por essas condições.

Prometo.  Seus olhos dourados me encaram com seriedade.

Agora, me diga, você tem alguma preferência?

Ele hesita e seu rosto cora ainda mais. 

Te… Tenho sonhado com uma garota. Ele abre um sorriso tímido.

Devo admitir que este humano é intrigante. Onde foi parar aquele comerciante seguro de si de agora a pouco?  Preciso encorajá-lo: 

Ora, me conte mais. Ela mexe com você? 

Sim. John mal consegue me encarar.

E como ela é?

A minha visão não é muito clara, mas ela me faz perder o controle.

Sinto seu corpo reagindo. Sua postura está mudando.

Não consegue lembrar de nenhuma característica? Posso reproduzi-la para você.

Ela tem longos cabelos pretos e…

E…

Ele recua.

Você vai achar que sou maluco.

Não vou. Conte-me. Ou prefere que eu veja?

Ver?

Posso entrar na sua mente e ver, se você deixar.

Você lê mentes?

Essa criança perde o foco a cada minuto!

Eu não leio mentes. Mas consigo ver o seu objeto de desejo se você quiser que eu veja.

Veja! ele se empolga.

Encosto minha testa na dele.

Agora pense nela.

Estou pensando.

Consigo ver a imagem. Não acredito nos meus olhos! Demoro mais que o normal tentando entender como é possível ele sonhar com esta criatura. Sinto o corpo dele tremer.  Afasto-me.  Essa pobre criança está perdida. Suspiro e acaricio seu cabelo, enquanto pergunto: 

Você sabe que ela não é humana?

Sei… Sinto a dor em sua resposta. Também sei que não existe…

Coloco meu dedo sobre seus lábios o impedindo de continuar falando. Seu coração está acelerado e seu chi ficou instável. Ele está apaixonado por ela. Vamos acabar logo com isso.

Tudo bem, feche os olhos – peço.

Visualizo a menina que ele deseja. Levo alguns segundos para fazer a transformação, pois titubeio sobre esta ser a decisão certa. Não tenho  escolha. 

Pode abrir aviso, colocando a mão em seu rosto.

Assim que ele me vê, suas feições se transformam.  Agora reconheço que seu chi me mostrou. Um predador. Antes que qualquer palavra seja dita, ele me beija. Sinto que este garoto fará valer cada moeda de ouro que pagou por essa noite.

Na manhã seguinte, acordo com a luz do Sol invadindo o quarto. Não vi John partir. Ao olhar para o lado vejo uma flor sobre o travesseiro. Até que o garoto sabe ser romântico. O que eu fui fazer?  Bom, era isso ou morrer.  Já foi. Não pensarei mais na noite passada. Amanhã ou depois, eles partirão e nunca mais vamos nos encontrar. É melhor desse jeito, pois acho que não conseguirei encarar minha pequena salvadora.

Enquanto tomo banho, percebo marcas em meu corpo. Moleque desajeitado… Esboço um sorriso ao lembrar de tudo que aconteceu.  Acho que entendo porquê ele não procura Sayuri. Para uma humana, seus toques seriam dolorosos. 

Após o banho, me dirijo à cozinha para fazer uma refeição. Antes de chegar lá, escuto vozes alteradas vindas do salão. Corro para ver o que está acontecendo.

Quando entro no recinto, vejo meu mestre com o rosto parecendo um tomate.             Garoto insolente! grita Baltazar, batendo na mesa.

John está recostado na cadeira. Ao ser ofendido, apenas suspira e pondera:

Acalme-se, eu apenas quero fazer um contrato de chi. Se o que está no anúncio é verdadeiro, não tem motivo para o senhor se zangar.

O homem parece que vai explodir, quando pergunta:

Você está questionando a minha honra?

Estou responde John. 

A resposta faz Baltazar ficar sem reação.

São negócios e eu não quero perder explica o garoto. 

Meu mestre respira, fundo fazendo esforço para manter o controle.

Duvido que você possa pagar o preço desse navio! Ele é histórico! Você não seria capaz de imaginar a grandiosidade da Imperatriz Volcana!

John levanta uma sobrancelha. Ele se ergue diante de Baltazar, fazendo-o erguer o rosto para encará-lo. 

Coloque seu preço começa o garoto. Eu volto amanhã para ouvir sua resposta.

O jovem sorri e sai batendo a porta

Rubi! berra Baltazar.

Estou aqui, senhor. Aproximo-me pelas suas costas.

O que você descobriu sobre esse fedelho? Ele vira para mim.

Ele é um Mestre de Chi, senhor.

Isso eu percebi no momento que ele quis fazer um contrato de chi! Alguma outra informação?

Eu não subestimaria o garoto, senhor.

Assim que concluo a frase, sinto um tapa em meu rosto. 

Pedi informação, não conselho!

Volto meu rosto para frente. 

Não consegui mais nada. Sinto muito. 

Baltazar me puxa pela coleira e me joga no chão.

Vadia inútil! O que você falou para ele?

Nada, senhor.

Cadela mentirosa!

Depois dessas palavras, ele pega uma cadeira e a joga sobre mim. Encolho-me e tento proteger minha cabeça com os braços. Ele torna a pegá-la e me bate até que ela esteja desmontada. 

Desgraçado! Sinto alguns ossos quebrando. Não consigo respirar direito.

Esse fedelho não vai levar meu navio! Pelo menos, não vivo.

O que vai fazer, senhor? Esforço-me para perguntar.

Cale a boca!

Ele chuta minha boca.

Homens! chama Baltazar.

Três de seus empregados de confiança aparecem.

Encham o navio de Volcana com explosivos. Quando aquele garoto metido a esperto embarcar com sua querida namoradinha, vamos fazer eles voarem pelos ares.

Sim, senhor.  Eles concordam.

Não! Uma dor toma conta do meu peito. Preciso avisar John e Sayuri.

O senhor vai destruir seu próprio navio? indago.

Já mandei você calar essa merda de boca! Ele me ergue pelo pescoço. Antes de irem, prendam essa raposa safada para que ela não avise seu amante. 

Ele se aproxima do meu ouvido e sussurra:

Você acha que eu não percebi seu interesse nesse moleque? 

Arrastam-me até o quarto. Eu preciso fugir! Tenho que avisá-los! 

Por favor, Rubi começa um dos capangas.  Não tente escapar. Temos ordens de matá-la se o fizer.

Essa coleira! Sempre ela! Se ao menos eu pudesse me dar ao luxo de arriscar minha vida… Perdoem-me, crianças. Não posso ajudá-los.

 Lágrimas brotam em meus olhos. Quanto tempo faz que elas não escorrem pelo meu rosto? É impossível contê-las. Elas se intensificam e trazem consigo uma onda que há muito estava presa. Não consigo parar o choro, os gritos, a culpa:

Desculpe! Desculpe!

            

 

 

Amanheceu o outro dia. Não consegui dormir, mal consigo me mover. Baltazar me obriga a voltar para forma de raposa. A dor da transformação é quase insuportável no estado em que estou. Sou arrastada até a frente do Casa Noturna, onde acontecerá o espetáculo organizado por ele. O cretino faz questão que todos vejam a sua honestidade.

Estou tremendo. Não sei dizer se é pela dor, ou por medo do que está por vir. Vejo John se aproximando. 

Ele traz consigo apenas uma maleta. Quando para em frente ao estabelecimento, questiona:

            Você chamou uma plateia?            

Quero que todos testemunhem nossa negociação, para que não haja dúvidas sobre meu caráter  explica baltazar. 

Por mim, tudo bem.

Tento sinalizar, mas ele não olha para mim.

Você já colocou o preço? pergunta John. 

Quero um milhão de moedas de ouro. Baltazar o encara.

O garoto franze o cenho, leva a mão ao queixo e comenta:

Poxa, um milhão de moedas é uma quantia problemática.

Eu sabia que não ia ter suficiente para me pagar  ri ele. Viram pessoal! Um tratante!

Os burburinhos começam. Para mim o blefe é um alívio. Vá logo embora!             Nunca disse que eu não tenho esse valor interrompe o garoto. Apenas acho uma quantia complicada para carregar por aí. Quantos baús vocês acham que seriam necessários para conter tanto ouro?  Que tal uma contraproposta menos volumosa?

Algumas risadas começam na multidão. Baltazar se infla, mas mantém a pose contrapondo: 

Estou ouvindo. 

John vai até meu dono e abre a maleta mostrando seu conteúdo.

O que você acha de dez cristais de água?

O rosto rosado de Baltazar empalidece. 

Eles valem dez vezes mais que sua proposta diz John. Sinceramente, achei que fosse pedir um pouco mais, então vim bem preparado. 

A plateia, que deveria estar ao lado do proprietário da Casa Noturna, foi conquistada pelo garoto. 

Eu sei quanto valem, pirralho insolente! 

Meu mestre tenta resgatar a vantagem na conversa:

Acho muito suspeito alguém como você ter essas pedras. Como você as conseguiu?

Informações não fazem parte da negociação. Vai aceitar minha proposta ou não?

Baltazar parece uma bomba prestes a explodir. Mas mantém sua postura. Tenho certeza que se não fosse por ser plano assassino, ele já teria mandado prender o garoto. 

Aceito responde ele.

Ótimo, vamos ao contrato! Vou explicar para que o pessoal aqui entenda como funciona. De acordo?

De acordo.

John se vira para as pessoas e inicia sua explanação: 

Será apenas um aperto de mãos. Eu direi o contrato e ele, se concorda ou não. Após o contrato selado qualquer tentativa de quebrá-lo ou descumprimento de suas regras, levará a morte.

A população se assusta com as últimas palavras.

Mas não temos com o que nos preocupar. Somos homens de palavra, certo Baltazar?

Certíssimo.

John coloca a maleta aberta no chão. Em seguida, Baltazar larga o anúncio do navio sobre as pedras. 

Eles se aproximam e dão as mãos. 

Eu, Mestre John John, invoco um contrato de chi!

Uma luz dourada cerca os dois. Vejo as pernas do meu mestre tremendo. Aposto que nunca participou de um contrato antes.

Agora direi os termos no nosso acordo. Eu, John John pago a você Baltazar Bust a quantia de dez cristais de água já refinados e verdadeiros, em troca do seu pertence,  também verdadeiro, que está neste anúncio. Você confirma ser Baltazar Bust?

Confirmo.

Você está ciente dos riscos deste contrato?

Estou.

Você concorda com os termos ditos por mim?

Concordo.

Assim que meu dono responde, a luz dourada desaparece. O público aplaude o espetáculo. Os dois se afastam.  John se abaixa, junta a maleta e a entrega para Baltazar dizendo:

Pronto. Aí estão suas pedras.  Agora quero minha parte.

Justo. Vou pedir para meus homens o acompanharem até o navio.

Pare! Menino tolo! Você disse que não fazia contratos! Mentiroso! Comprou a própria morte! A culpa está me consumindo. Preciso fazer algo! Não posso deixá-lo embarcar!  Mas se me mover, será o meu fim. Que tipo de escolha absurda é essa?! Por que me importo tanto com o humano?!

Navio? o garoto pergunta.

Sua dúvida chama minha atenção.

Sim, o navio da Imperatriz Volcana conforme nosso contrato Baltazar com estranhamento.

Não lembro de ter dito que queria o navio John fala coçando o queixo.

Está de brincadeira, moleque? Você pediu o navio do anúncio! Leve-o!

Eu disse a palavra navio?

Não, mas naquele papel só tem o nav… Baltazar parece ter sido atingido por um balde de água gelada. Suas pernas falham, mas seus homens correm para segurá-lo.

Não entendo o que está acontecendo. Então John sorri para mim, apontando para o retrato. Lá estou eu, ao lado de meu exibido mestre.

Agora você é minha, Rubi.

Você me enganou! Eu exijo quebra de contrato! Baltazar grita.

O cenho de John se fecha, e sua voz baixa alguns tons:

  Cuidado com o que deseja, velhote. 

Essa mudança foi suficiente para fazer meu ex mestre entender o recado. Baltazar joga a chave da minha coleira para o garoto.

John se aproxima de mim. Sua expressão está relaxada novamente.

Vamos embora diz ele, enquanto me liberta meu pescoço da Clotilde. Sayuri está nos esperando no barco.

 

 

 

Faz alguns dias que estamos no mar, eu me mantive em forma de raposa para meus ferimentos se recuperarem mais rápido. Acho difícil encarar Sayuri, mas estou acostumando.

Rubi. chama o capitão. 

Ele e a imediata estão sentados na cozinha. Suas expressões me preocupam. Aconteceu alguma coisa?

Agora que já se recuperou, precisamos conversar com você Sayuri começa.

Um frio corre pela minha espinha. Seja o que for, preciso aceitar. Eles são meus novos donos. Respiro e volto à forma  humana.  John vira o rosto em sinal de respeito a minha nudez. Sayuri me alcança algumas peças de roupa.

Ela já está pronta, Jeje. Pode olhar.

Jeje?

Nós te chamamos aqui, porque precisamos saber o que pretende fazer daqui pra frente fala John.

Eu farei o que me ordenarem respondo.

Rubi, você não entendeu? pergunta o garoto.

Entender? 

Você não é mais escrava. Eu nunca escravizaria uma amiga diz ele, ao perceber que não estou compreendendo.

Amiga… repito suas palavras para tentar acompanhá-las.

Sim! afirma Sayuri

Então… estou livre… Meu cérebro está demorando para processar. 

Queremos saber se vai continuar viagem com a gente, como nossa companheira, ou se quer que a deixemos em algum lugar para seguir sua vida John explica.

Quero ficar com vocês! respondo tão depressa que até eu me surpreendo.

Ótimo! Conseguimos uma tripulante! Sayuri comemora.

Eu prometi, não prometi? John se gaba. E ela sabe cozinhar!

Isso não está certo. Preciso falar para eles. Olho para baixo tentando criar coragem.

O que foi, Rubi ? pergunta minha imediata.

Eu preciso fazer uma pergunta e contar algo para vocês. Depois disso vocês decidem se continuarei aqui ou não respondo.

Pergunte fala John, recostando-se na cadeira. 

Você disse que não fazia contratos. Por que fez um com Baltazar?

Ele ri e responde:

Aquilo não foi um contrato. Foi apenas um show de luzes douradas. Esse tipo de magia é muito rara, supus que ninguém nunca tivesse visto acontecer antes. Então inventei uma cerimônia. Estou surpreso de ter enganado você. 

De fato enganou. Estava com minha mente em outro lugar, não consegui prestar atenção na sua ladainha contraponho.

Todos os meus pensamentos estavam focados em uma forma de salvar você, garoto imprudente. Pensando agora, foi tudo uma grande bobagem. A vida dele nunca esteve em risco.  

Eu também preciso contar que… minha voz está vacilando.

Calma, você pode contar o que quiser. Não estamos aqui para julgar o seu passado. Sayuri tenta me acalmar.

Acho que é melhor eu mostrar.

Começo a tirar a roupa.

O que está fazendo? pergunta John, virando o rosto.

Por favor, olhem. Prometo que não precisarão olhar nunca mais. Mas preciso que vejam dessa vez.  Peço desculpas adiantadas a você, querida Sayuri.

Termino de tirar a roupa.

Essa não é minha verdadeira forma. Volto ao meu corpo original. Eu sou…

Lindo! Sayuri deixa escapar. Quero dizer… macho!

Cubro minhas partes com a cauda. John, não diz uma palavra.

Desculpe-me capitão peço.

A vergonha que a há muito eu não sentia, me toma por completo. Nem lembro quantos anos fazem que não uso meu corpo masculino. 

Acho muito bom você se desculpar, seu cretino ele começa.

Sua face demonstra a confusão interna que eu causei. Entendo sua raiva. Estou disposto a partir assim que ele ordenar.  

Como você ousa ser mais bonito do que eu? conclui e sorri.

Neste momento, eu que estou perdido. Que tipo de reação foi essa?

Neste navio, não importa o seu passado. Nem se é macho ou fêmea. Você será nosso companheiro daqui para frente. Enquanto quiser ficar, será bem-vindo diz John.

Suspiro. O ar parece ter voltado aos meus pulmões. Esse garoto é mesmo estranho. Mas acho que conseguirei viver com estas crianças.

Meu nome é Rub apresento-me, pela primeira vez em muito tempo.

John vem até mim e aperta minha mão.

Bem-vindo a tripulação, Rub.

Conto 2: Entre o Navio e a Raposa

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